Os solos agrícolas podem estar contaminados por bactérias resistentes a antibióticos

Ao longo das últimas décadas as bactérias resistentes a antibióticos e os seus genes de resistência tornaram-se importantes contaminantes ambientais. Estes podem acumular-se na água ou nos solos e daí entrar na cadeia alimentar humana, por exemplo, através de vegetais ingeridos crus.

Para avaliar a possível contaminação dos solos, que pode resultar de práticas como a irrigação com águas contaminadas ou a aplicação de fertilizantes orgânicos, são frequentemente utilizados métodos de microbiologia que analisam directamente o material genético das bactérias, em particular o PCR quantitativo (qPCR). Embora este tipo de métodos seja considerado a melhor escolha para testar a contaminação dos solos com bactérias resistentes a antibióticos, suspeita-se que possa ser insuficiente para avaliar possíveis riscos para a saúde humana. Desse modo, uma leitura simplista de análises de bactérias resistentes a antibióticos em solos pode levar à conclusão (incorrecta) de que não existem riscos de transmissão aos humanos. O objectivo deste estudo foi alertar a comunidade científica para este problema.

Assim, utilizando evidências experimentais, demonstrou-se que a quantidade de genes de resistência a antibióticos que pode ser determinada em solos, com base nos procedimentos de extração de DNA e análises de qPCR comummente utilizados, excede claramente o que pode ser considerado negligenciável. Verificou-se que os limites de quantificação (LOQ) dos genes de resistência a antibióticos testados (vanA, qnrS, blaTEM, blaOXA, blaIMP, blaVIM) foram de aproximadamente 10 000 cópias de gene por grama de solo seco, independentemente do tipo de solo testado, valor este que era apenas cerca de 10 vezes mais alto do que os níveis de detecção. Estes valores, considerados muito elevados para assegurar que não existem riscos de propagação e transmissão, resultam de aspectos intrínsecos das técnicas de extracção e de análise de DNA e não de falhas operacionais. A implicação desta limitação técnica, se ignorada, será a de permitir uma sucessiva acumulação de genes de resistência a antibióticos nos solos, que só será perceptível quando forem atingidas doses muito altas e já com elevados riscos para a saúde humana.

A publicação, orientada pela Profª Célia Manaia, pode ser consultada na íntegra neste endereço.

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