Resistência a Antibióticos no Ambiente: Uma Questão de Saúde Pública

Artigo de autoria da Profª. Doutora Célia Manaia, originalmente publicado no Magazine da Sociedade Portuguesa de Microbiologia a 18 de novembro de 2016

 

A proliferação e dispersão de bactérias resistentes a antibióticos ensombra os grandes sucessos alcançados pela medicina ao longo dos últimos anos. De forte ameaça clínica, decorridos 70 anos sobre o uso regular de antibióticos, as bactérias resistentes aos antibióticos e os seus genes passaram a importantes contaminantes ambientais. O perigo que representam é agravado pela reconhecida capacidade de propagação e adaptação que caracteriza as bactérias. Este artigo faz uma breve reflexão sobre os problemas e possíveis soluções que envolvem a questão da resistência a antibióticos no ambiente.

 

Os antibióticos revolucionaram a medicina

O uso de antibióticos no tratamento e prevenção de infecções bacterianas foi um dos marcos mais importantes na história da medicina, permitindo não só tratar infecções outrora fatais, mas também desenvolver intervenções invasivas, em particular processos cirúrgicos, com elevado risco de infecção. Perante o enorme sucesso terapêutico dos antibióticos, ao longo de alguns anos a indústria farmacêutica investiu entusiasticamente na procura e produção de novos princípios activos. Numa onda de entusiasmo crescente, percebia-se que, para além de grande parte do investimento poder ser rentabilizado ao nível da medicina humana e veterinária, outras aplicações garantiam ainda maiores margens de lucro. O uso de antibióticos como factores promotores de crescimento em pecuária representava uma importante área de mercado. Esta prática manter-se-ia na União Europeia até ao ano de 2006 e até aos nossos dias noutras áreas do globo (Cantas et al., 2013). Hoje constata-se que, paradoxalmente, a maior razão para o fracasso dos antibióticos como agentes terapêuticos pode ter sido justamente o grande sucesso que tiveram nas primeiras décadas da sua utilização (Clatworthy et al., 2007).

 

Os antibióticos abriram a caixa de Pandora?

Muitos antibióticos são produzidos na natureza por fungos e por bactérias e portanto a capacidade para conviver com diferentes tipos de moléculas com actividade antimicrobiana encontra-se codificada nos genomas de diferentes microrganismos (D'Costa et al., 2006; Dantas et al., 2008). Elementos genéticos muito semelhantes aos genes de resistência que hoje ocorrem em bactérias patogénicas, podem ser encontrados em sedimentos de pergelissolo (permafrost) com mais de 30 000 anos, demonstrando que, além de natural, a informação genética responsável pela resistência a antibióticos é também ancestral (D'Costa et al., 2011). O que aconteceu ao longo dos 70 anos de uso de antibióticos parece poder resumir-se de uma forma muito simples - o uso massivo e indiscriminado de antibióticos levou a que no corpo humano, de animais ou no ambiente, algumas linhagens de bactérias resistentes a antibióticos proliferassem abundantemente, invadindo locais onde antes não existiam, nem tais bactérias nem os genes que agora albergam.

Estas linhagens bacterianas possuem o que se designa por resistência adquirida. Ou seja, uma bactéria que era originalmente suscetível a um antibiótico passou, através de um evento genético rápido e relativamente simples, a ser resistente. Como as bactérias não realizam reprodução sexuada, uma forma hábil de poderem renovar a sua informação genética é através de processos conhecidos por transferência horizontal de genes (transformação, que consiste na captação de material genético livre no meio; mediada por vírus; e conjugação, que implica o contacto físico entre duas bactérias). Esta é uma forma de recombinação genética que oferece às bactérias excelentes oportunidades de adaptação a ambientes hostis como, por exemplo, conseguir sobreviver e multiplicar-se na presença de um antibiótico (Bengtsson-Palme & Larsson, 2016). Acredita-se que a transferência horizontal de genes tenha estado na génese da transmissão de determinantes de resistência do microbioma natural para bactérias de relevância clínica, e admite-se que assegure a contínua propagação de resistência entre bactérias ambientais e clínicas (D'Costa et al., 2006; Dantas & Sommer, 2012). Deste modo, pensa-se que o uso massivo de antibióticos seja a principal razão para o aumento de resistência a antibióticos. Contudo, pode haver uma multiplicidade de factores que facilitam a dispersão da resistência, desde poluentes ambientais a situações de stress (Martinez, 2009).

 

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