Poderá o Natal ser verde?

Marta Correia, Professora da Escola Superior de Biotecnologia

A época Natalícia não tem de ser um festim de excessos, de consumismo desenfreado e de gula descontrolada, em que saúde e planeta sofrem! 

O ano de 2020 foi um ano marcado por uma pandemia sem precedentes na nossa história recente, acentuando dificuldades e assimetrias sociais. Foi também o ano em que o Nobel da Paz reconhece o esforço das Nações Unidas na mitigação da fome que atinge mais de 820 milhões de pessoas, num momento em que, paradoxalmente, dois mil milhões de adultos e crianças têm sobrepeso/obesidade, e mais de mil milhões de toneladas de alimentos por ano são desperdiçadas/lixo. Paralelamente, há uma consciência colectiva crescente que orienta as suas escolhas alimentares tendo por base critérios de promoção de saúde e também de preocupações ambientais. De facto, a sustentabilidade ambiental não é hoje uma postura despicienda. Aliás, o consumidor tem de forma crescente e consistente procurado conhecer o impacto que o seu estilo de vida projeta na natureza (pegada ambiental).

Assim, este Natal poderá ser o momento no qual refletimos sobre o modo como vivemos, o que consumimos e o que desperdiçamos; um ponto de viragem no qual a celebração Natalícia seja, para além de simbólica, uma contribuição mais ecológica e sustentável na quantidade de presentes, nos materiais dos embrulhos, na iluminação incandescente e, também, nos alimentos escolhidos para a nossa mesa!

Existem orientações claras sobre como reduzir o desperdício alimentar durante a época natalícia que, no geral, têm como objetivo o de: alertar a população para a importância das suas escolhas no que concerne a produtos alimentares importados e com maior pegada ambiental, consciencializar para a importância de considerar as emissões de carbono emitidas para a atmosfera como um critério a ter nas nossas escolhas, e ainda o de sensibilizar para a diminuição do desperdício alimentar particularmente nesta época festiva.

É incontornável a importância que as refeições festivas assumem na identidade colectiva, designadamente na época Natalícia, bem como a presença de alguns paladares e aromas de alimentos típicos, em mesas sobrelotadas de produtos pouco ou nada saudáveis e de impacto ambiental considerável. Portugal, tem como elemento central da sua ceia de Natal o bacalhau ou o pescado, contudo comete exageros na quantidade de enchidos, queijos e sobremesas doces. Isto faz com que Portugal esteja em terceiro lugar na classificação da ceia de Natal mais calórica da Europa, apenas atrás do Reino Unido e da França com refeições acima das 2500 calorias!

Está ao alcance de todos transformar esta época festiva numa mais sustentável e amiga da saúde e do ambiente, bem como mais divertida para os pequenos. Em termos alimentares deverá dar preferência à compra de alimentos frescos e de produtores locais, da época, não processados, e se possível provenientes de comércio justo (Fairtrade) ou de mercados locais. Uma questão sensível na gastronomia Natalícia atual é a questão do consumo de carne que para a população Portuguesa é, em média, de 88,2 gramas diários1, longe da meta dos 14 gramas diários aconselhados pela EAT-Lancet diet, estudo publicado na conceituada revista The Lancet 2. 

É importante referir que o consumo de carne vermelha (vaca, borrego e porco), de produtos de charcutaria e de carnes processadas são opções que, não só estão associadas a aumento de risco de cancro colorectal3, mas são também, opções com impacto ambiental muito significativo. Daí que uma das medidas importantes a adoptar neste Natal seja a redução destes alimentos, optando por resgatar pratos tradicionais Portugueses mais mediterrânicos, com maior consumo de ervas aromáticos, leguminosas, tubérculos, hortícolas, mais sustentáveis e saudáveis. Neste contexto a Associação Portuguesa de Nutricionistas (APN)4 relembra que 3/4 do prato deva ser preenchido com alimentos de origem vegetal e 1/4 do prato com alimentos de origem animal. De salientar a importância que as leguminosas, como o grão-de-bico, podem assumir no Natal, quer como acompanhamento nos pratos tradicionais, quer na confecção dos doces. A APN refere ainda que deve respeitar-se o esquema habitual das refeições durante o dia para evitar o consumo excessivo na ceia de Natal.

Um outro ponto crítico na época Natalícia são as sobras. Uma das formas mais importantes de reduzir as contribuições em gases de efeito de estufa é a redução do desperdício alimentar. Neste campo destaca-se a necessidade de reduzir a quantidade de comida confeccionada e, se ainda assim existirem sobras, utilize-as de forma criativa, até com a participação dos mais novos! Arranjar espaço extra no congelador antes da época festiva pode ser também uma boa ajuda. Outras dicas importantes são, por ex., na cocção utilizar a tampa da panela, dar preferência à panela de pressão em detrimento do forno e, sempre que possível, aproveitar a água de cozedura dos vegetais para fazer as sopas da família. Num Natal verde, não há espaço para materiais descartáveis nas refeições; opte sempre por guardanapos de pano e repartir as sobras pelos familiares ou instituições de solidariedade.

Por último, escolha presentes que estimulem comportamentos mais ecológicos, tais como caixotes de compostagem e recipientes reutilizáveis para infusões/água/café. Outra solução é desafiar os mais novos a criarem os seus próprios presentes, estimulando-os a elaborar e reutilizar materiais de casa, como conchinhas, pedras, folhas secas e cartolinas, como ofertas aos amigos e família, bem como decorar a casa! 

No Natal, vamos fazer diferente? Os nossos filhos agradecem!

 

Referências
1) Inquérito Alimentar Nacional e de Atividade Física, 2015.
2) Food in the Anthropocene: the EAT–Lancet Commission on healthy diets from sustainable food systems. January 2019. The Lancet.
3) International Agency for Research on Cancer, 2015.
4) APN, Guia para um Natal + sustentável . APN. 2017.

Este artigo foi previamente publicado na revista Marketeer Kids a 31 de dezembro de 2020.

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